10/05/2018

Resenha|| Tirza




"O tempo não cura todas as feridas, descobriu. O tempo rasga e abre ainda mais as feridas, provocando intoxicações e infecções. A morte talvez ponha fim a todas as dores; o tempo não."



Título: Tirza
Autor: Arnon Grunberg
Editora: Rádio Londres
Páginas: 512
Ano: 2016
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Jörgen Hofmeester tinha uma vida perfeita: uma esposa atraente, uma casa com jardim em um bairro nobre de Amsterdã, uma carreira prestigiosa como editor de livros de ficção estrangeira, duas filhas lindas, Ibi e Tirza, e uma conta-corrente na Suíça. Uma vida burguesa, sossegada, que acaba sendo subvertida por uma série de eventos dramáticos: Ibi, pouco mais que uma menina, é flagrada em situação constrangedora com o inquilino de Jörgen e, depois desse episódio, resolve ir embora para sempre da casa do pai; a esposa de Hofmeester abandona a família em busca de “autorrealização”; a editora, em decisão unilateral, o aposenta antecipadamente; Tirza, a caçula e filha predileta, objeto da obsessão paterna, quando conclui os estudos, parte para uma longa viagem pela África com o namorado marroquino, que guarda inquietante semelhança com Mohammed Atta. 




"Tirza" é a revelação profunda da natureza humana. Uma obra que expõe de forma visceral, crua e real o pior que pode ser encontrado em cada um de nós e o que acontece quando se perde o controle sobre ele. Uma leitura densa, que nos carrega por caminhos inesperados e até mesmo desconhecidos, que culminam em um final assustadoramente magnífico.

Jörgen Hofmeester tem uma boa vida, pode-se dizer. Casado e com duas filhas que ama de modo incondicional, trabalha como editor e adora seu emprego. Porém, de modo repentino tudo que ele conhece começa a ruir: ele descobre que a filha mais velha tem um caso com seu inquilino, sua esposa o troca por um cara mais jovem e a editora decide que ele irá se aposentar mais cedo. Diante dessa nova realidade, Jörgen tentará ao máximo se adaptar e oferecer o seu melhor para as filhas, que a partir de então terão mais atenção e cuidados de seu pai.

Após alguns anos, Hofmeester vê sua esposa retornar para casa e a relação dele parece estar ainda mais conturbada do que quando ela partiu. Morando apenas com sua filha mais nova, pela qual ele tem profundo amor e uma proteção exacerbada, eles precisam agora se adequar a essa nova moradora, que não é muito bem aceita naquele lugar e que provoca repulsa em sua filha. Além de ter que lidar com essa nova condição em sua casa, ele precisa aceitar a partida de Tirza, a filha mais nova e preferida dele, que irá para a África com o namorado, o qual Hofmeester insiste que é um terrorista que está envolvido no ataque do onze de setembro.



"'Infelicidade', diz ele, 'falávamos sobre isso. Infeliz todo mundo é. E quando se compreende isso, não tem mais importância. A felicidade é uma pose, um mito, uma forma de cortesia, em festas, durante jantares.[...]'"

Jörgen parece controlar muito bem toda a situação e como controle é algo intrínseco a ele, tudo acontece  sob suas diretrizes. Mas talvez toda falta de emoção e esse autocontrole, seja apenas uma máscara para toda a selvageria que ela busca esconder a todo tempo. Essa violência escondida caminha com ele até o ápice final da história, revelando o maior segredo: como ele é de verdade.

Um livro verdadeiramente surpreendente. Durante toda a narrativa o autor vai deixando algumas pistas, sobre a real personalidade de Jörgen, mas somente no final podemos descobrir se elas eram verdadeiras ou não. Um personagem que nos é apresentado de modo pacífico e quase cômico no início e que caminha , levando o leitor com ele, para uma explosão do seu verdadeiro 'eu' que fora escondido durante uma vida inteira.

Algo marcante no enredo é o controle que Hofmeester exerce, ou busca exercer, e toda a devoção que ele tem por Tirza. Esse controle é extremamente excessivo e sufocante, uma das causas de revolta de sua filha mais velha, que deseja uma liberdade que seu pai não a permite ter. Em todo tempo o desejo alucinante de Jörgen por controlar tudo e todos nos é mostrado, mas nunca o vemos tão exposto até o fim da narrativa. A única que não se incomoda, ou ao menos não demostra claramente, se incomodar com essa característica dele é a sua filha Tirza, que mais e mais parece amar seu pai.

Essa atitude de Hofmeester me lembrou da realidade de muitas pessoas (principalmente crianças e adolescentes) que vivem sufocados pela super-proteção de seus pais, e que se tornam completamente dependentes deles. É compreensível se ter um maior cuidado com a segurança e saúde dos filhos, principalmente se levarmos em conta os diversos quadros trágicos que vemos, mas não podemos de modo algum privar-los de sair, de conhecer outras pessoas, de ter amigos, de viver. É necessário ensiná-los como conviver da melhor forma em sociedade para que eles possam crescer com respeito e maturidade.

"Você não pode superproteger suas filhas, Jörgen. Não a vida inteira. Quanto mais você as protege, mais fracas elas se tornam. Você tem que prepará-las para o mundo. Isso é o que as pessoas dirão dela. Que ela é tão lisa na frente quanto atrás. Se eu não disser, outros dirão. É melhor que ela ouça de mim, porque eu digo com amor."


Com uma forma de escrever única, Arnon Grunberg conduz a história em um ritmo de tensão muito gostoso que nos faz devorar cada página em busca de repostas que são descobertas cada uma em seu devido tempo. Ao decorrer muitas interrogações e afirmações surgem nas nossas mentes o que ajuda a entendermos melhor a história. Cada personagem dessa narrativa tem uma construção incrível, e sem dúvida a complexidade de Jörgen Hofmeester é fantástica.

A edição está impecavelmente linda. Em capa dura, de cara já nos é apresentado uma feição que nos remete a incerteza e não revela, implicitamente, muita coisa em relação a história. A diagramação é simples, mas confortável. Seguida de uma ótima revisão, deixando esse livro ainda melhor. Com a parte gráfica maravilhosa e um enredo intenso muito bem trabalhado, "Tirza" é o tipo de obra que não pode faltar na instante de qualquer leitor.

Apesar de ser uma leitura um tanto densa, "Tirza" nos mostra o lado mais cruel e mais humano do próprio ser humano e daqueles que fazem de tudo para ter os seus desejos mais sórdidos saciados. É uma narrativa além do romance, que sai brutalmente das páginas e alcança o leitor de modo violento, nos fazendo pensar, repensar e refletir longamente. Uma leitura que dói por mostrar a realidade de ser quem somos, de sermos humanos.

Indico essa leitura para todos aqueles que são seres humanos, e querem/precisam saber mais sobre a natureza de ser.

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Um comentário:

  1. I did not know the book,but its quite interesting..

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